sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

🌐 Relações entre Globalização, Globalismo e Primeira Guerra Mundial ⚔️

Este é o meu TCC da faculdade de História. Não acrescentei nada no que diz respeito ao conteúdo, apenas tirei o caráter formal dos padrões dos trabalhos acadêmicos e adaptei a formatação para que fique melhor aqui no meu blogue. Finalizado no início de 2020. 


Relações entre Globalização, Globalismo e Primeira Guerra Mundial 

    Diego Fernandes Mendes 1

RESUMO

Este artigo discorre sobre o processo de globalização, desde seu início, com os projetos coloniais iniciados com as explorações marítimas, com seus pressupostos históricos, passando pelo início dos projetos imperiais de poder de inspirações globalistas (projetos de domínio global), a expansão do capitalismo global (período neocolonialista), abordando os principais fatores que levaram a ordem diplomática internacional para um caminho de ruptura em 1914, durante o período histórico conhecido como Belle Époque, fazendo o mundo conhecer a primeira guerra de proporções globais, a Primeira Guerra Mundial, que foi fortemente influenciada por ideias de governos com aspirações globais. Guerra esta que levou o mundo a mais uma guerra, a Segunda Guerra Mundial, cuja principal consequência foi a Guerra Fria, uma disputa pela hegemonia global, desta vez de cunho ideológico. Visando explicar todo período de modo bem objetivo, o artigo é concluído com breves comentários sobre as consequências de todo processo, que culmina na disputa entre os blocos globalistas EUA e URSS na Guerra Fria e finalizando com o início de um novo período de disputas pelo domínio global.

Palavras Chaves: Globalização. Globalismo. Primeira Guerra Mundial, Geopolítica Global


1 INTRODUÇÃO 🖋️

Temas muito abordados atualmente, a globalização e uma de suas consequências, os projetos de poder globalistas são temas muito polêmicos e também temas de extrema importância para que seja possível compreender o mundo atual. 

Os países europeus disputaram a hegemonia dos mares desde o Século XV, passando pelo período da Terceira Revolução Industrial até o Século XX. O nacionalismo pós Renascentismo e os ideais imperialistas do século XIX, assim como o tecnicismo positivista e a visão da necessidade do progresso liberal capitalista foram os grandes fatores que contribuíram para que a visão de mundo globalizado fosse a tônica das ações das grandes potências ocidentais. Não é possível compreender o atual mundo extremamente globalizado e tecnológico sem compreender quais são as origens políticas, econômicas e civilizacionais de modo geral que trouxeram o mundo a atual situação, nem se pode entender o atual sistema internacional sem a compreensão dos períodos de transição das relações entre povos e nações.

 Este artigo não visa se aprofundar nos temas. Visa sim demonstrar que desde o início da globalização, sempre houveram projetos imperiais com o objetivo de domínio global, sendo o termo globalismo o mais apropriado para nomear tais projetos, sendo distinto do termo globalização, termo este de cunho mais genérico, que diz respeito a interações econômicas, política e culturais a níveis internacionais e globais. Visa também mostrar que foi na ruptura diplomática da Primeira Guerra Mundial que houve a maior tensão e transformação da história do mundo globalizado. 


2 INÍCIO DA GLOBALIZAÇÃO ATRAVÉS DAS EXPLORAÇÕES MARÍTIMAS 🇵🇹

O século XVI foi palco de grandes mudanças: na cultural de modo geral (artes, poesia, música, etc), o Renascentismo se consolidou. A economia expandiu. Na religião, surgiu a Reforma (para alguns, Revolução) Protestante e, como consequência de tudo isto, a política, sobretudo internacional, ganhou novos rumos: a expansão dos mares. Com a queda de Constantinopla, o último bastião do antigo Império Romano, toda a economia, sobretudo a da Europa e do Oriente Próximo se transformou rapidamente. De venezianos até os ibéricos, passando pelos centro-europeus (alemães, austríacos, suíços, por exemplo) e os britânicos tiveram que mudar todo um sistema de rotas de comércio que existia desde séculos anteriores, pois os bloqueios comerciais e navais impostos pelos líderes do Império Otomano abalaram drasticamente todo o sistema financeiro europeu. As rotas euroasiáticas deram lugar a novas rotas exploradas pelos ibéricos que se expandiram inicialmente através da grande costa da África, até então pouco explorada por europeus.

Com a mudança, os ibéricos saíram na frente:

Portugal foi a primeira nação a se aventurar no mar com objetivo de estabelecer colônias em áreas remotas, processo este iniciado no século XV. E a ele, seguiram-se outras nações, principalmente Espanha, Inglaterra, Holanda e França. O ciclo findou no século XX. É verdade que a ideia de colonização já existia no mundo antigo, várias cidades gregas, por exemplo, fundaram colônias. Mas, somente a partir do século XV foi possível o surgimento de impérios coloniais que varriam grandes extensões de terra sem contiguidade, que continham partes em porções isoladas nos continentes, com as comunicações entre a metrópole e a colônia realizadas por meio de longas navegações, nos mais variados mares (Andrade, 20--). 


 A partir de então, inicia-se uma grande disputa pela hegemonia dos mares: holandeses, franceses e principalmente, ingleses começaram a disputar com os ibéricos cada nova rota marítima através dos vastos oceanos. Assim, então, podem-se tirar algumas conclusões: 
Iniciadas então as grandes navegações e iniciados então os grandes processos de colonização entre continentes, começou então um período que pode ser chamado de globalização. 


3 PERÍODO COLONIALISTA, O PRIMEIRO GRANDE EMBATE PELA HEGEMONIA GLOBAL 🇪🇦 🇬🇧

Ao mesmo tempo em que os novos conceitos de Estado Nação se consolidavam, um novo conceito surgia: o dos impérios coloniais, fortemente controlados por monarquias que na maioria das vezes eram absolutistas. A principal inspiração pós medieval foi a Renascença. O período imperial da Antiguidade Clássica (inclua-se aí o período imperial de inspiração cristã em Roma) serviu como inspiração para os impérios coloniais que surgiram com o início da modernidade.. As consequências das ideias da Renascença foram preponderantes para a expansão europeia, aliando ideias humanistas, cientificistas e aristocráticas com ideias expansionistas. A grande mudança organizacional dos povos europeus foi o advento do moderno Estado Nação “vestfaliano”, a partir de 1648, após a Guerra dos 30 anos (1618-1648).

De acordo com Cotias (2017). a partir da Paz de Vestfália, podemos reconhecer o surgimento de uma nova tipologia de Estado, o moderno, cuja característica mais proeminente é o da soberania. Ela marca o fim das hostilidades conhecidas como a Guerra dos Trinta Anos, em 1648.

A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) foi um conflito Europeu que se desenvolveu em função de fatores como as rivalidades religiosas, o expansionismo territorial e as disputas no plano econômico, com teatros de guerra que passaram pelos territórios germânico, dinamarquês, sueco e francês. A Revolução Francesa, de 1789, também teve certos ideais antigos resgatados por influência Renascença (COTIAS, 2017). 

Os projetos de impérios cristãos foram preponderantes para que surgissem grandes impérios europeus. Os impérios de Portugal, Espanha, os pioneiros na expansão marítima, e Inglaterra, que tornou-se a grande potência global com a Revolução Industrial que surgiu após o mercantilismo ter enfraquecido, são os grandes exemplos.

Portugal deixou de ser apenas um reino e, após conquistar grandes territórios sobretudo na América do sul, foi tornando-se cada vez mais complexo, de modo que, no ano de já era um Estado Nação consolidado. De modo parecido foi com a Espanha.

Os ingleses também foram rápidos em buscar a expansão marítima, pois o Mercantilismo favorecia mais as nações com vocação marítima e os ingleses foram competentes em saber utilizar as tecnologias de navegação da época.

O período colonial aliou, de fato, ideais imperialistas aos novos conceitos de Estado Nação. Temos, portanto, uma certa tensão entre a tradição ocidental de império e as novas ideias de organização social e política surgidas com o advento da modernidade. 


3.1 A CONSOLIDAÇÃO DO CAPITALISMO E O NEOCOLONIALISMO 💰

Após o período mercantilista, que colocava o bulionismo como norte econômico no que diz respeito a questões econômicas dos Estados europeus do século XVI e meados do XVII, O chamado período neocolonialista apresenta grandes diferenças do período colonialista clássico, porque se no período colonialista clássico havia ainda um forte componente religioso nas razões de expansão das potências europeias, o neocolonialismo é mais focado na economia cada vez mais capitalista e menos mercantilista, cada vez mais industrializado e menos dependente das antigas plantations coloniais, apesar de ainda existirem muitas colônias de exploração e ou “colonização clássica” (para simplificar o termo) sob o poder nações europeias, e cientificista do que no ideais de expansão do cristianismo, embora a religiosidade ainda não estivesse ausente da cosmovisão dos governantes e poderosos das nações no período neocolonialista e capitalista . No período neocolonialista, podemos notar que o positivismo, de viés cientificista e ateísta gozava de grande prestígio entre as aristocracias e universidades mundo afora. O positivismo nasceu influenciado pelos ideais da Revolução Francesa e da Revolução Industrial.

Essa linha de pensamento ocidental nasce dos resultados dos acontecimentos do século XVIII, principalmente a Revolução Francesa e Revolução Industrial. Os pensadores do positivismo tratavam de aspectos filosóficos, políticos e sociológicos e propunham um entendimento do mundo pautado nos valores exclusivamente humanos, ou seja, descartavam as ciências da religião e as doutrinas que investigavam a essências das coisas (TEIXEIRA, 2015)

Como o comércio, a educação e toda a rápida divulgação de pensamento e conhecimento, seja pelo telégrafo seja pelo vapor, tudo mudaram, acredito que o grande criador prepare o mundo para se tornar uma nação falando um único idioma, uma realização que fará que os exércitos e os navios não sejam mais necessários. Presidente Ulysses S. Grant, 1873. (Hobsbawn, 2017).

O período do neocolonialismo foi contemporâneo ao período em que se iniciaram também as grandes federações, com a expansão e consolidação dos EUA no século XIX (primeira república da América) e no processo de solidificação do Estado brasileiro no mesmo período. Embora tivesse um sistema político monárquico, o Brasil já surge como um Estado-Continente semelhante aos EUA em vários aspectos. 


4 OS IMPÉRIOS EUROPEUS E OS EUA COMO VANGUARDA POLÍTICA E ECONÔMICA DO PLANETA 🗼🗽

Não seria exagero dizer que velhas ideias imperialistas não morreram com o final do século XIX nem com a derrocada dos império após o final da Primeira Guerra Mundial, pois, se os tradicionais impérios ruíram, uma nova forma de se organizar superterritórios estava ganhando mais força e a expansão econômica norte-americana já era bastante forte.

O período de transição entre a “Era Colonial e Neocolonial” e a Primeira Guerra Mundial, que Hobsbaum (2017) define como A Era dos Impérios, vai desde 1875 até 1914. Esta definição, embora não possa ser considerada como uma verdade absoluta, serve para que se possa compreender melhor o período em que o Liberalismo triunfou em quase todo mundo e também serve como norte para que seja possível compreender como se deu a derrocada do sistema internacional com a Primeira Guerra Mundial. Os impérios europeus já não eram tantos, mas eram muito poderosos. Portugal estava enfraquecido, já não possuía o Brasil, a Espanha havia perdido grande parte de seus vastos territórios e, apesar de ainda possuir colônias significativas, como Filipinas e Cuba, por exemplo, não podia mais concorrer nem com a França, muito mais industrializada e rica, nem com a primeira superpotência global, o Reino Unido, que detinha a hegemonia Industrial e comercial perante seus concorrentes globais. A Alemanha, unificada oficialmente desde 18 de Janeiro de 1881, crescia em uma velocidade enorme e em poucos anos tornou-se um império fortemente expansionista e altamente industrializado. 

Além disso tudo, surgia como potência uma nação nova, uma Federação de Estados prósperos com um território gigantesco a ser conquistado, ainda pouco populoso em relação a Europa e Ásia e em crescimento rápido: os Estados Unidos da América, que desde o princípio, apesar de não ter entrado tão cedo na disputa pela hegemonia global, já dava claros sinais de que entraria no concerto de nações para estar no topo, seja economicamente, seja militarmente, culturalmente e geopoliticamente. O grande exemplo de agressividade da parte dos EUA, que demonstravam que o país iria sim disputar a hegemonia global, foi a Guerra Hispano-Americana, em 1898, quando os EUA expulsaram os espanhóis de Cuba e das Filipinas de modo particularmente nas Filipinas, aonde posteriormente, na chamada Guerra Filipino-Americana (1899-1913), 1 milhão de civis foram mortos pelos militares dos EUA. O episódio ficou conhecido como Genocídio Filipino. Estava claro que a política de Washington já era claramente agressiva e expansionista, guiada por “ideais globais”. Em suma, nas últimas três décadas do século XIX, ou, como muitos afirmam, as últimas décadas do “longo século (1776 ou 1789 – 1914), o mundo já era de fato um mundo globalizado e os mais poderosos países do mundo estavam claramente buscando dominá-lo futuramente.

Para Hobsbawn, (2017) qual seria o resultado de uma comparação entre o mundo dos anos 1880 e o dos anos 1780? Em primeiro lugar, em 1880 ele era genuinamente global, Quase todas as suas partes agora eram conhecidas e mapeadas de modo mais ou menos adequado ou aproximado.

Revolução Industrial, expansão imperial, crescimento populacional, expansão da produção agrícola, aumento absurdo em comunicação e principalmente transportes levaram o mundo a um patamar tecnológico nunca antes experimentado na história humana. Estavam dadas as condições para que um certo desespero por expansão econômica, industrial, comercial, territorial e cultural passasse a guiar as elites econômicas, intelectuais e políticas das grandes potências globais., baseadas, como já dito anteriormente, em ideias liberais, positivistas e cientificistas que buscavam a máxima integração entre distantes territórios ao mesmo tempo em que as ideias de aniquilação de nações rivais cresciam cada vez mais. A marcha para um rompimento diplomático e um embate militar que levou o mundo globalizado a sua primeira grande guerra globalizada em 28 de Julho de 1914 foi forte e constante.


5 OS ANOS DE CRISE E RUPTURA ATÉ O INÍCIO DA GRANDE GUERRA 🇨🇵 🇩🇪 🌋

Segundo Stevenson (2016), a essência da guerra está na ferida e no sofrimento, na captura, na mutilação e na matança de seres humanos, bem como na destruição de suas propriedades, por mais férteis que sejam nossos eufemismos linguísticos para esconder esse fato.

Conforme os Estados imperiais europeus foram crescendo, foram também crescendo as tensões entre eles. Alemanha, França, Reino Unido, Espanha, Rússia ficavam cada vez mais propensos a tomar atitudes radicais para defender seus próprios interesses mundo afora. Não se pode deixar de fora também a lembrança de que o Império Japonês também lutava por expandir seu poder pela Ásia.

Veremos agora, um resumo sobre as tensões políticas (e sociais de um modo geral), econômicas, diplomáticas, militares e culturais que levaram, crise após crise, para o caos que se instaurou na Eurásia em 1914. Sendo o cenário diplomático e geopolítico internacional demasiadamente complexo em qualquer época para que se possa definir todas as rupturas de modo exato sempre, podemos, mesmo assim, traçar uma espécie de linha cronológica de situações que foram, crise, após crise, enfraquecendo as relações entre europeus até um ponto de não retorno, um ponto de ruptura. Para que seja mais fácil a compreensão dos acontecimentos, cabe organizar as tensões sobretudo em alguns pontos: 

Enquanto se armavam, as potências europeias fizeram diversos tratados. Os principais foram:

🔸Congresso de Berlim (1878): 13 de junho - 13 de julho de 1878. Reunião de líderes das grandes potências europeias e o Império Otomano. Na sequência da Guerra Russo-Turca de 1877–1878, o objetivo da reunião foi reorganizar os países dos Balcãs.

🔸Tríplice Aliança (1882): acordo militar entre o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Reino da Itália. Formou-se então um bloco na Europa central e em parte do Mediterrâneo (Itália) . A Tríplice Aliança foi estabelecida formalmente em 20 de maio de 1882, em que cada uma das nações garantia apoio às demais no caso de algum ataque de duas ou mais potências sobre uma das partes. O objetivo principal era construir uma barreira político-militar que isolasse a França na Europa Ocidental.

🔸Entente do Mediterrâneo (1887): foi uma série de tratados assinados pela Grã-Bretanha e Itália em 12 de fevereiro de 1887 com a mediação de Otto von Bismarck, pela Áustria-Hungria em 24 de março e Espanha em 4 de maio do mesmo ano. Estes tratados buscaram definir os impasses diplomáticos e militares relativos ao Mediterrâneo.

🔸Conferência de Berlim (1885): Realizada em Berlim, de 15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885, marcando a atuação europeia na divisão territorial da África. Organizado pelo Chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck, o evento contou com a participação dos países europeus (Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal, Rússia e Suécia), dos Estados Unidos da América e do Império Otomano. O objetivo oficial era o de regulamentar a liberdade comercial nas bacias do Congo e do Níger, assim como novas ocupações sobre a costa ocidental da África. 🌍

O principal resultado da conferência de Berlim foi o estabelecimento de novas regras padronizadas sobre a questão da colonização europeia.

▪️Tratado de Resseguro (1887): Feito entre o Império Alemão e a Rússia. O tratado foi assinado em 18 de junho de 1887 e continha duas partes: Alemanha e Rússia neutras em caso uma guerra com um terceiro país. A neutralidade não se aplicaria se a Alemanha atacasse a França ou se a Rússia atacasse a Áustria-Hungria; Em um protocolo secreto, a Alemanha declarou-se neutra caso a Rússia interviesse no Bósforo e nos Dardanelos.

▪️Entente Cordial (Entente Cordialle) – 1904: Série de acordos assinados em 8 de abril de 1904 entre Reino Unido e França. A Entente Cordiale, juntamente com a Entente Anglo-Russa e a Aliança Franco-Russa, tornou-se posteriormente a Tríplice Entente, entre o Reino Unido, França e Rússia. Posteriormente os Estados Unidos entraram na Tríplice Entente para enfrentar a Tríplice Aliança.

▪️A Conferência de Algeciras (1906): Ocorreu em Algeciras, Espanha, com o propósito de mediar a primeira crise marroquina entre a França e a Alemanha, e assegurar o pagamento de um empréstimo concedido pela Alemanha ao sultão em 1904. A Entente Cordiale, entre a França e o Reino Unido, tinha distribuído a influência dos dois países respectivamente, no Marrocos e no Egito, comprometendo-se as duas potências a não interferirem nas respectivas áreas. A Alemanha, contudo, mostrou interesse em estabelecer um regime de "portas abertas" em Marrocos, o que colidia com os interesses franceses. O imperador Guilherme II chegou a desembarcar em Tânger, a 31 de Março de 1905 e estabeleceu contatos diplomáticos com os ministros do sultão, em sequência dos quais se propôs a realização de uma conferência internacional. 

▪️A Crise de Agadir (1911): Também conhecida como Crise Marroquina de 1911, quase culminou em um conflito armado entre Alemanha e França, o que poderia ter ocasionado a guerra global três anos antes.

▪️A Conferência de Londres de (1912-1913): Conhecida também como Conferência de Paz de Londres, foi uma cúpula internacional das seis grandes potências da época (Grã-Bretanha, França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Itália). Buscava pacificar as tensões e conflitos balcânicos. Um armistício ao fim da Primeira Guerra Balcânica foi assinado em 3 de dezembro de 1912. A Conferência de Paz de Londres contou com a presença desses delegados dos aliados balcânicos (incluindo a Grécia) que não haviam assinado o armistício anterior, bem como o Império Otomano.


5.1 CORRIDA ARMAMENTISTA 🛡️🗡️

Na medida em que as ações diplomáticas como os acordos e conferências iam falhando, mais as nações europeias iam se armando. As tensões subiam. A corrida armamentista crescia. Demonstrações de força bélica aumentavam e a corrida armamentista ia se acirrando. 

Ao mesmo tempo em que as potências faziam e desfaziam acordos e tratados, seus arsenais de guerra não só aumentavam, como também eram rapidamente modernizados. Segue abaixo uma simples lista do poderio bélico dos principais países envolvidos na guerra:

Alguns dados sobre o poderio militar das potências envolvidas na guerra:

A guerra exigia o elemento humano de maneira voraz. As forças armadas da Alemanha tinham, em média, de 6 a 7 milhões de soldados, com cerca de 5 milhões no exército de campo, e durante a guerra foram mobilizados 13,3 milhões de homens – cerca de 85% de sua população masculina com idade entre 17 e 50 anos. A Rússia mobilizou entre 14 e 15,5 milhões; a França, 8,4 milhões (7,74 milhões da França metropolitana e 475 mil de suas colônias); as Ilhas Britânicas, 4,9 milhões para o exército e 500 mil para a marinha e a força aérea, ou um terço da mão de obra masculina anterior a guerra. As marinhas e as forças aéreas eram as maiores recrutadoras, , e uma imensa quantidade de mão de obra civil era necessária para assegurar os serviços necessários e os funcionários para as crescentes burocracias dos tempos de guerra, mas eram os exércitos que mais exigiam recursos humanos e provocavam as baixas de maneira esmagadora (Stevenson, 2016). 


5.2 AS GUERRAS PRÉ-1914 💣

Antes que o “Concerto Europeu” viesse a fracassar, as guerras que precederam o colapso de 1914 foram demonstrativos nada ignoráveis de que as disputas globalistas poderiam terminar em uma grande catástrofes. Para que seja mais bem compreendida a escalada bélica até o início da guerra, é importante perceber que, mesmo sendo chamado de Belle Époque, o período que antecedeu a “Grande Guerra” não foi exatamente um período de paz. Vejamos os principais confrontos:

Embora não tenha sido uma guerra, a crise da Bósnia (1908-1909), a crise da Bósnia foi um fator de agravamento das tensões entre Austro-Hungria e Alemanha (membros da Tríplice Aliança) e França e Rússia, que também já estavam jutos desde o acordo diplomático da Aliança Franco-Russa (1892). A anexação da Bósnia e Herzegovina pelo império sediado em Viena fez com que russos, sérvios e franceses protestassem duramente contra tal ação. Alemães ficaram ao lado dos austro-húngaros, que haviam anexado o novo território porque temiam que os turcos do Império Otomano o tomassem de algum modo, já que os chamados “jovens turcos” haviam feito uma revolução constitucuinal em Constantinopla (atual Istambul). Desde 1878, o território da Bósnia e Herzegovina estavam sob administração do Império Austro-Húngaro, mas pertencia oficialmente ao Império Otomano. De fato, este evento abalou profundamente as relações internacionais na Europa, já que, principalmente franceses, russos e sérvios encararam o evento como um claro sinal de agressividade da parte austro-húgara (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 20--). 

Cada país buscava seus interesses. Desde as potências “globais” França, Reino Unido, Alemanha, EUA e Rússia até as potências regionais Itália, Império Otomano, Japão e Império Austro-Húngaro (sendo o quarto citado uma potência de nível global militarmente falando e o Japão uma forte potência bélica que chegou a derrotar a Rússia em 1905). O Império Otomano não possuía planos mundialistas, buscando apenas manter suas fronteiras e sobrevivência por estar em um período de crise, mas historicamente sempre foi uma potência expansionista. O Império Japonês era hegemônico no extremo oriente e o Império Austro-Húngaro, apesar de ser a única grande potência europeia que não possuía ambições globais, estava alinhado com a Alemanha e contou com apoio alemão assim que a grande guerra começou nos Balcãs.      

🔺Guerra Russo-Japonesa (1904 – 1905): A guerra ocorreu no nordeste asiático, agravou-se, e o regime político do czar Nicolau II da Rússia foi abalado por uma série de revoltas internas em 1905, envolvendo operários, camponeses, marinheiros (como a revolta no couraçado Potemkin) e soldados do exército. Greves e protestos contra o regime monárquico do czar explodiram em diversas regiões da Rússia. Os líderes socialistas e comunistas procuraram organizar os trabalhadores com o objetivo de fazer uma revolução. O Japão era um país de consideráveis condições militares, apesar de enfrentar severas crises econômicas. Com navios menores, mas com grande mobilidade e poder de fogo muito ao dos pesados navios russos, a marinha do Japão sobrepujou a marinha russa. 

🔺Guerra Ítalo-Turca (1911 - 1912): Conflito ocorrido entre 1911 e 1912, envolvendo o Império Otomano e a Itália pela posse da Líbia, dividida na época em Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan. Durante o conflito, a Itália também ocupou as ilhas do Dodecaneso, outra possessão otomana na época. No dia 29 de setembro de 1911, a Itália declara guerra ao Império Turco Otomano. Os turcos assinam um tratado de paz com os italianos em Lausanne, Suíça, a 18 de outubro de 1912. Pela primeira vez na história, um avião foi usado em um esforço de guerra. Italianos e otomanos voltariam a se enfrentar na Grande Guerra. 🇮🇹 🇹🇷

🔺Guerras Balcânicas do início do Século XX: semanas após o final da guerra entre Itália e Império Otomano, os conflitos nos Balcãs se iniciaram:
Foram conflitos bélicos que ocorreram na região dos Bálcãs. Foram duas guerras entre Sérvia, Montenegro, Grécia, Romênia e Bulgária pela posse dos territórios Império Otomano. Em 1912, Grécia, Sérvia, Bulgária e Montenegro formaram a Liga Balcânica, oficialmente para reivindicar melhor tratamento aos cristãos na Macedônia turca.

Em outubro de 1912 os exércitos da Liga, vitoriosos nas batalhas de Kumanovo, capturaram esses territórios, menos Constantinopla. Embaixadores europeus intervieram para redesenhar o mapa dos Bálcãs com vantagem para a Bulgária e em detrimento da Sérvia. Um mês depois, o governo de Sófia lançou um ataque preventivo contra os sérvios e gregos, que queriam as conquistas búlgaras. Embora vitoriosos contra os sérvios em Kalimantsi (18 de julho), a Bulgária sofreu um ataque surpresa. A Romênia, até então neutra, ocupou o território litigioso da Dobrudja e ameaçou atacar para Sófia. E para piorar, os otomanos aproveitaram a ocasião para retomar Adrianópolis (atual Edirne, na Turquia). A Bulgária viu-se perdida.

No Tratado de Bucareste (agosto de 1913), Grécia e Sérvia dividiram a Macedônia, e a Romênia ganhou parte da Bulgária. A Albânia, que estava sob influência turca, tornou-se um principado muçulmano independente. A nova Grande Sérvia agora representava uma ameaça à Áustria-Hungria. A Rússia prometeu apoiar a Sérvia, e a Alemanha prometeu ajudar à Austria-Hungria. O assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro em Sarajevo, em 1914 deu à Áustria-Hungria o pretexto para invadir a Sérvia, levando ao início da Primeira Guerra Mundial, seis meses depois.

Após séculos do surgimento de poderosos impérios que prosperaram buscando domínio sobre continentes, descobrindo novas terras e muitas vezes entrando em conflito com seus concorrentes, as disputas que não foram apenas militares e políticas, mas também econômicas, sobretudo após a expansão do capitalismo e do liberalismo no mundo, culminaram em uma violenta e explosiva guerra de proporções globais.
 

5.3 A ENTRADA DOS EUA NA GUERRA 🇺🇲

Apesar de as tensões de guerra terem sido particularmente mais fortes nos Balcãs e a disputa imperial ter estado majoritariamente dentro da Europa, podemos considerar que a guerra entre EUA e Espanha, embora não tenha contribuído diretamente para que a Primeira Guerra Mundial tenha começado, não pode ser deixada de lado, pois nesta guerra ficou claro que os EUA estavam buscando ser uma grande força não só na economia, mas também buscava de um modo geral, estar entre os grandes impérios, e embora não fosse um império no sentido clássico do termo, estava claramente mostrando ao mundo (sobretudo a Europa), que, apensar de ser uma jovem nação, pretendia ser tão forte quanto os velhos países europeus. Apesar de ter entrado tardiamente na guerra (6 de Abril de 1917), os EUA já eram uma grande potência havia bastante tempo e já estavam auxiliando a Tríplice Entente com armamentos e alimentos em geral, tendo sido a guerra muito vantajosa para a economia do país. O interesse estadunidense estava atrelado aos anseios de expansão da influência do país mundialmente, sobretudo no campo econômico. Aí está mais um fator que faz com que a globalização tenha sido algo de primeira importância para motivar a guerra. A globalização passou a ter então, os EUA como protagonistas tão importantes quanto eram os países ricos europeus.

Como podemos ver, a guerra veio em etapas, mas, de fato, se tornou global porque havia interesses globais em disputa, para além dos já muito relevantes motivos potenciais para casus belli a níveis regionais, que aumentaram em muito as tensões. Disputas diplomáticas, tensões étnicas e religiosas, velhas questões fronteiriças e disputas comerciais (disputas comerciais se estenderam para muito além das fronteiras euroasiáticas).

Império Otomano, o Império Austro-Húngaro, Império Alemão: todos ruíram ao final da guerra. Mesmo do lado vitorioso houve uma enorme mudança: a queda do Czar Nicolau II deu lugar a uma revolução que culminou com o fim do regime monárquico russo, seguida de uma guerra civil que terminou coma vitória dos revolucionários comunistas. Foi o fim de uma etapa da globalização, aonde impérios tinham grande poder sobre vastos territórios. A partir de então, apenas o Império Britânico seguiu com um grande império de proporções mundiais, embora não tenho continuado assim por muito tempo.
Não se pode negar que o caráter global da guerra se deu porque as grandes potências possuíam influência mundial e que os EUA, que entraram depois, também já tinham ambições globais, como veio a se confirmar no pós Segunda Guerra Mundial. Por isto, é relevante dissertar sobre o pós Segunda Guerra Mundial, pois, passadas as duas guerras globais, o que veio a acontecer depois foi uma consequência lógica do que foi o principal objetivo dos conflitos: a hegemonia, o domínio global, baseado em parte em princípios ideológicos modernos, em parte em velhas ideias imperialistas, adaptadas aos tempos atuais.


6 A GUERRA FRIA COMO CONSEQUÊNCIA: GLOBALIZAÇÃO POLARIZADA ☢️

Após a terrível fase que vai de 1914 até 1945, com período da Primeira Guerra Mundial, a crise de 1929, a ascenção dos regimes de Terceira Posição Política (fascismo, nazismo, etc) na década de 30 e Segunda Guerra Mundial, ao invés de vastos impérios com organizações diversas, como era antes de 1914, a chegada da Guerra Fria trouxe uma nova forma de organização de vastos territórios. Organizações não mais imperiais clássicas, e sim baseadas principalmente em 2 modelos republicanos. As formas políticas dos velhos impérios de grande importância com os de Rússia, Turquia e do Reino Unido, por exemplo (embora o Império Britânico não tenha acabado, ficou muito enfraquecido em comparação ao que era antes das duas guerras mundiais), deram lugar as enormes Repúblicas da URSS e China, além da já consolidada Federação que formou os EUA (iniciada em 1776). 

As clássicas civilizações baseadas em princípios religiosos e monárquicos deram lugar definitivamente aos projetos rivais republicanos dos socialistas e dos liberais capitalistas. O mundo entrou, portanto, em uma fase em que as disputas geopolíticas foram centralizadas em ideologias. Explicitaram-se os projetos de dominação global com os projetos globalizantes liberais e comunistas.


7 CONSIDERAÇÕES FINAIS 🗞️

Surgiu, logo após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações, em 28 de junho de 1919, extinta oficialmente em 20 de Abril de 1946, dando lugar a ONU (Organização das Nações Unidas), criada oficialmente em 24 de outubro de 1946, após o fim da Segunda Guerra Mundial. 

Algo é certo: por um lado, o velho modelo imperialista e colonialista foi quebrado, ao mesmo tempo em que o modelo padronizado de Estado Nação pós Revolução Francesa parece ter se enfraquecido neste início de Século XXI de tal modo que a atual disputa pela hegemonia global não poderá mais ser travada com os mesmos métodos de diplomacia e de guerra que vigoraram do século XIX até o final do século XX.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, a disputa entre URSS x OTAN (EUA e aliados), passa a ser o grande conflito global. As duas superpotências passam a disputar cara centímetro de terra pelo mundo. Seguramente, a disputa, que não era puramente ideológica e militar, era também geopolítica. Se, por um lado, os EUA estavam em grande vantagem por terem saído ilesos internamente após a guerra, sem grandes perdas militares e com território intacto, a URSS contava com a vantagem geopolítica: estava no centro da Eurásia, ocupando a parte conhecida na geopolítica como “heartland”, tendo assim o controle de uma extensão territorial incrivelmente enorme, e estando perto da também devastada Europa, que sob tutela dos EUA, tentava se reerguer da catástrofe da guerra. Desde então, passa a ser uma estratégia da OTAN conter o avanço soviético não somente fora da Eurásia, mas principalmente na “Ilha Mundo”. De fato, os soviéticos estavam empenhados em cercar os EUA de alguma forma (vide questão cubana, por exemplo) e expandir o projeto socialista pelo mundo. Mesmo com o final da Guerra Fria, as mudanças geopolíticas não terminaram.

A solidificação da União Europeia foi uma grande prova de que Estados Nação com dimensões territoriais como França e Alemanha não possuíam mais a força que tinham antes de 1914 para sobreviver em pé de igualdade com países com grandes territórios como EUA e China. O último laço histórico entre as sociedades da Antiguidade , Idade Média e Modernidade parecia ter sido cortado em definitivo e a globalização e os projetos globalistas entraram em uma nova fase. A Revolução Tecnológica e as novas formas de comunicações levaram a disputa pela hegemonia global para um novo patamar. Os ideais globalizantes tecnocráticos de organizações e blocos econômicos internacionais a cada dia se sobrepujam as velhas formas de Estado. 

Sendo assim, pode-se considerar que no atual momento, vê-se um período no qual se pode concluir que existe uma nova ordem global sendo criada, aonde se pode notar não apenas tensões entre “mega” estados, mas também uma grande discussão em torno de Confederações, como a União Europeia, e entre diferentes modelos civilizacionais e diferentes ideologias. 

8 REFERÊNCIAS 🔎

ANDRADE, M. Impérios Coloniais. Parte 1. MONTFORT Associação Cultural. 20--. Disponível em: <http://www.montfort.org.br/bra/veritas/historia/imperios-coloniais-parte-1/> Acesso em: 29 de Mar. de 2020  
Bosnian crisis of 1908. Encyclopaedia Britannica. 20--. Disponível em:< https://www.britannica.com/event/Bosnian-crisis-of-1908>. Acesso em: 20 de Fev. de 2020. 
COTIAS, P. F. A. M. História moderna: da formação do sistema internacional. 1 ed. Rio de Janeiro: SESES, 2017. 80p.
HOBSBAWN, E. J. A Era do Capital -1848 - 1875. 27 ed. Rio de Janeiro/ São Paulo: Paz & Terra, 2017. 515p.
HOBSBAWN, E. J.. A Era dos Impérios - 1875 - 1914. 24 ed. Rio de Janeiro/ São Paul : Paz e Terra, 2017.
STEVENSON, D. 1914 - 1918: A História da Primeira Guerra Mundial - Parte 1 - A Deflagração. São Paulo: Novo Século, 2016.
STEVENSON, D. 1914 - 1918 - A História da Primeira Guerra Mundial - Parte 2: A Escalada. São Paulo: Novo Século, 2016.
TEIXEIRA, L. História do pensamento contemporâneo. Rio de Janeiro: SESES, 2015.











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