sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O que é neoimperialismo?

https://de.m.wikipedia.org/wiki/Datei:Us-uk.svg

Texto original postado no começo do blogue, mas com data atualizada por conta da correção de erros de digitação.

É  muito comum o termo imperialismo ser usado por opositores e analistas do projeto de poder global do eixo Londres-Washington. Eu não sou um defensor do uso deste termo, pois este projeto de poder não se encaixa em um projeto típico de império. O que existe é um projeto de poder que eu prefiro chamar de neoimperialismo. Vou explicar porque. 
Desde o surgimento dos primeiros impérios, desde a Mesopotâmia até o Egito, nas primeiras civilizações, passando pela antiguidade clássica de impérios como os de Roma e da Pérsia, até chegarmos na modernidade, com os impérios europeus mercantilistas, como os impérios da Espanha e a primeira fase do Império Britânico, sempre foi possível identificar alguns traços em comum entre estes diferentes impérios. Suas estruturas não se resumiam em forte poderio econômico e imposição militar. Embora estejamos falando de períodos distintos e de civilizações diferentes e regiões diversas, todo grande império da história possuía objetivos que iam bem além de projetos de expansão territorial e de enriquecimento.
 Quando um império se impõe sobre diversos povos em uma extensão territorial enorme (por definição, impérios ocupam vastas regiões), acontece também um grande intercâmbio cultural, linguístico e religioso, além é claro, de um grande impacto econômico e de circulação de pessoas. Babilônia, Egito e Roma são grandes exemplos. Os Babilônicos espalharam sua religião, sua cultura, seus conhecimentos arquitetônicos de seus projetos de enormes e fortificada cidades, sua linguagem semita influenciou diversos povos. A mesma coisa ocorreu com o Egito, que foi um império muito mais duradouro do que o Babilônico e que certamente ficará na história como um dos maiores e mais relevantes que o mundo já viu. Até hoje em dia a antiga civilização egípcia impressiona e seduz leigos, e especialistas do mundo todo. Ainda há muito o que se estudar e descobrir acerda do Egito Antigo. E o que dizer de Roma? 
A grandeza e a influência romana foram tão grandes que até hoje, o direito e a política romana são bases da já decadente atual civilização ocidental. Isso sem falar nas questões militares e religiosas, pois o cristianismo se expandiu através da formidável estrutural romana. Aliás, se estou digitando este texto em português, é porque o Latim reinou por mais de 1000 anos como língua mãe de milhões de pessoas na Europa e adjacências. Grandioso, realmente. 
Portugueses e espanhóis desbravaram a América e civilizaram o continente, cujas nações mais poderosas, apesar de complexamente organizadas, ainda estavam na fase dos terríveis sacrifícios humanos. Apesar dos abusos cometidos pelos ibéricos no continente americano, principalmente por causa da terrível escravidão,é inegável que o processo colonial foi algo positivo no geral, é só os mais ignorantes ou ideologizados negam isto. 
Em todos os impérios que citei aqui, outra coisa muito relevante aconteceu, também: os povos colonizadores, obviamente imigraram, ocuparam territórios colonizados, espalharam seus genes, se misturaram, mestiçaram, criaram algo novo, às vezes de modo injusto, às vezes de modo correto, mas em todos os casos, o novo surgiu, tradições foram mantidas, outras, destruídas e a humanidade seguiu sua caminhada. Desde cedo, aprendemos sobre os grandes império das história.

 Mas algo mudou a partir do Século XIX. Os velhos impérios mudaram, muitos caíram desde então e o termo colonialismo deu lugar a um novo termo: o neocolonialismo. Tema de matéria de Ensino Médio, a maioria das pessoas deveria entender o básico a respeito do tema, mas dada a péssima situação educacional do Brasil, a palavra neocolonialismo causa certa confusão, mas eu considero algo simples de se explicar, pois há um pilar central no neocolonialismo, que se chama capitalismo. A Segunda Revolução Industrial (meados de 1850 até1945) possui grande relevância aí.

https://brasilescola.uol.com.br/historiag/neocolonialismo.htm

A Conferência de Berlim foi uma tragédia para a humanidade.

Ainda que eu não queira ideologizar ou demonizar a palavra capitalismo, é fato histórico que a grande base da expansão neocolonial foi a fé mamonista no lucro. Quando uma potência buscava uma colônia, não buscava mais com múltiplos interesses, buscava apenas com o objetivo de obter o máximo lucro possível para suas elites e de muitos modos, suas estruturas de Estado e nada mais. Foi aí que o Império Britânico se tornou o maior império da Era Moderna. Você não vê na África ou na Ásia milhões e milhões de descendentes de ingleses. Você não vê no Congo milhões de descendentes de belgas, e não vê nas Filipinas milhões de descendentes de estadunidenses. Você já leu sobre o que os militares dos EUA fizeram nas Filipinas e sobre o genocídio filipino? Não há quase nada disponível em português acerca do que o neoimperialismo dos EUA nas Filipinas fez:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Filipino-Americana

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_filipino#:~:text=O%20genoc%C3%ADdio%20filipino%20ocorreu%20como,de%20mais%20de%2010%25%20da

Existem muitos outros exemplos de genocídio da parte dos governos de Washington, tanto de governantes do Partido Democrata, quanto do Partido Republicano...

Desde o século XIX até hoje, você só verá um histórico de exploração econômica e ambiental. 

Este resumo é uma ótima opção para começar a entender a questão: 

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/9-genocidios-generalizados-praticados-por-governos-autoritarios.phtml

Não é possível ver nestes países africanos ou asiáticos, desde o século XIX igrejas bem estruturadas, com uma sólida tradição religiosa, como no caso da América, com ricas culturas. O que há nas Filipinas, por exemplo, é herança espanhola ou consequência da mesma herança. Os velhos impérios e os primeiros impérios coloniais eram de fato impérios clássicos, com seus defeitos e qualidades. Os neoimpérios são bem diferentes e nada deixam nada de bom em suas neocolônias. O Império Britânico escravizou a Índia através da exploração capitalista e ferrou a China com as guerras do ópio. O que os britânicos fizeram na África é de causar revolta em qualquer um. Darwinismo social, racismo, eugenia...
 As trocas culturais e populacionais foram insignificantes. Alemães e belgas também destroçaram a África subsaariana. Franceses só fizeram besteira por lá, também. Os EUA chegaram depois na "brincadeira", mas não foram diferentes: Cuba deixou de ser colônia espanhola para ser o prostíbulo do Caribe (e ironicamente terminou aderindo ao socialismo marxista), as Filipinas espanholas foram massacradas pelos EUA, com um resultado de mais de 1 milhão de mortos. 
Um genocídio. E durante a Primeira Guerra Fria, os EUA colonizaram economicamente a América Latina e de modo covarde comandaram e/ou apoiaram golpes e mais golpes militares no continente com a desculpa da ameaça da URSS. Com ou sem URSS, eles teriam feito o mesmo, mas com outras desculpas baseadas em medos ideológicos.

Não é correto chamar os EUA de império. Não é certo, não é digno. Culturalmente, os EUA contribuem pouco, muito pouco, principalmente se levarmos em consideração o baixo nível artístico do país, se formos comparar com o que produziram e produzem os europeus, por exemplo. Não é que não tenha arte boa nos EUA, mas o lixo artístico ianque é enorme. Quase tudo o que se produz lá só visa o lucro. Economicamente, é uma catástrofe para os países pobres o padrão petróleo-dólar. Politicamente, o que os EUA fazem sobretudo no Oriente Médio e América Latina é uma vergonha em todos os sentidos. Uma pena, pois uma grande potência global poderia fazer algo bom, pois tem capacidade de sobra. E finalmente, em termos práticos, não dá pra chamar de império colonial um país que apenas recebe imigrantes. Quantos milhões de norte-americanas e descendentes vivem no Brasil, por exemplo? Desnecessário que eu responda. Milhões de iberodescendentes vivem no Brasil, resultado de séculos de colonização em uma época em que para chegar ao Brasil era uma dificuldade tremenda. Quantos milhões de descendentes de britânicos existem na Índia ou na Nigéria? Pois é. Não há uma real e forte "troca civilizacional", não há o desejo de real expansão, apenas há interesses exploratórios e nada mais. Nem os mais pobres de lá eles querem por aqui: eles querem é mão de obra barata lá, para manter a máquina funcionando, e mesmo assim, sob forte comando de entrada de imigrantes. Eles criam o problema e querem dar a solução depois. 

 Os governos de Washington sempre enxergam o Brasil como Zona de Retaguarda dos EUA. Veja aqui o que é o Brasil geopolíticamente para a OTAN: 

https://youtu.be/Sd_Bdoi1acs

Não quero que pensem que eu considero que a  Babilônia era moralmente melhor do que EUA ou Reino Unido, ou algo do tipo. Não é disso que se trata. Eu não estou dizendo que qualquer império é melhor do que o neocolonialismo. O meu objetivo é mostrar que neocolonialismo é o termo mais adequado para  se utilizar no contexto em que estamos.

É claro que não posso deixar de fora o "império soviético". Eu ainda aceito o termo império porque era comandado por Moscou, que manteve um processo de russificação em sua área de influência eurasiática, mas que modo algum merece algum respeito, dado que foi uma mega burocracia socialista que fracassou e que em grande medida teve responsabilidade em ter deixado o leste europeu em frangalhos, inclusive a própria Rússia. Uma forma um tanto hipócrita de império, já que em nada defendeu das tradições eslavas. Pelo contrário, as destruiu o quanto pode. Até hoje o leste europeu é apenas uma sombra do que era antes da segunda década do século XX. Cabe lembrar aqui a destruição que os soviéticos exportaram mundo afora, destruindo culturas e semeando a discórdia com desculpas semelhantes as do eixo Washington-Londres. Um lado dava a desculpa do comunismo, o outro, a desculpa do liberalismo. 
E para não dizerem que me esqueci, o projeto de império do Reich nazista foi outra catástrofe, é claro, e me dá nojo só de mencionar aqui a palavra nazismo. 🤢

Fico muito curioso para saber o que fará a China, agora que está também no topo do mundo. Farão algum tipo de conciliação entre seu próprio modelo socialista e suas tradições e criará um império parecido com os impérios clássicos ou fará como fez a Moscou comunista, levando a destruição civilizacional do marxismo, só que em uma escala muito maior e de proporções inimagináveis para os povos do mundo? Muito cedo para dizer. O que podemos dizer é que de fato há milhões de chineses espalhados mundo afora, e não haverá problemas em relação a quantidade de pessoas para colonizar qualquer país, já que gente na China é o que não falta.

O imperialismo se dá com o domínio territorial, cultural e econômico de modo tradicional, formal.

O neoimperialismo é informal, pode ser relativo em vários aspectos, inclusive militar, sempre com influência cultural e sempre com forte domínio econômico.

Há um caso específico que eu quero citar, que é o caso do Japão e da Coréia do Sul. Após o final da Segunda Guerra Mundial, o Japão passou a ser controlado por Washington-Londres, mas estando o Japão geograficamente ao lado da URSS, da China e posteriormente da então recém criada Coréia do Norte, houve um acordo para o Japão fazer parte do eixo desenvolvido América do Norte/Europa ocidental, de modo que partir de então, foi posto em prática um projeto de desenvolvimento econômico que deu certo para o Japão, embora o Japão tenha se tornado totalmente dependente militarmente da OTAN, desde então. Com a trégua da Guerra da Coréia, a então recém fundada República da Coréia (a Coreia do Sul) também foi integrada ao mesmo projeto. O Japão já era forte, então foi aproveitada a estrutura que o país já tinha. Um Japão forte foi de grande auxílio para o "eixo ocidental". Mas culturalmente o Japão e a Coreia mais perderam do que ganharam, e isso é muito relevante para qualquer país. Uma nação não se faz só com dinheiro e indústrias. A mentalidade modernista já está levando Coréia e Japão aos poucos para o precipício, pois nem filhos esses povos querem ter hoje em dia. Estão aos poucos buscando uma espécie de "auto-extinção". 

Afirmo então, para finalizar, que neoimperialismo é a palavra mais adequada, mais justa, para definir o que é que o eixo Washington-Londres faz hoje em dia. Não quero aqui pregar "xenofobia" contra estes países, até porque admiro o que há de bom por lá e na verdade espero que boas pessoas possam administrar estes países. No final das contas, os próprios habitantes estadunidenses e britânicos pagam as contas das ingerências neoimperiais. 

Eu quero deixar algo para reflexão: o que está se passando no Brasil desde meados de 2016 não é parecido de algum modo, dadas as devidas proporções e diferenças de época, com o que se passou com a África do século XIX? Não está cada vez mais claro que o Brasil parece estar sendo aos poucos "neocolonizado" ? 🤔





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